Capítulo 5 - O Temido Juizado de Menores

O dia estava ensolarado. Um sábado digno de ir para a praia. Acordamos cedo, fomos para o escritório trabalhar em alguns projetos, quando eu acessei o site do jornal local. Vi na página principal que o juizado de menores estava dando informações sobre adoção num lugar ali perto.

Léo, que tal irmos lá perguntar o que fazer? – se Maomé não vai até a montanha... ele respondeu positivamente e fomos.
Eu estava ansiosa. Avistamos o balcão e um comissário nos atendeu. Explicou quais as exigências. Nós atendíamos a todas. Nos deu um número para ligarmos e fazermos um pré-cadastro, pois a assistente social ligaria de volta. Pegamos o número e seguimos com nosso roteiro de visitas às obras.

O dia com céu azul limpíssimo parecia um presságio de boas notícias. E aquele número de telefone também.

Liguei. Atenderam. A atendente foi muito atenciosa. Dei meus dados - filho, ela está perguntando sobre as restrições de idade, sexo e cor... - comentei com Léo, que dirigia mais atento à minha ligação do que ao trânsito. Fala que não temos restrição alguma, somente `idade, que deve ser até 2 anos... – Léo falou com tanta convicção que me deixou ainda mais animada. A conversa terminou com a promessa de um retorno: a assistente vai entrar em contato com você esta semana ainda – a atendente disse.

No caminho inteiro não tivemos outro assunto. Precisamos fazer uma poupança para nosso filho. Precisamos pintar a casa. Precisamos organizar nosso horário com os clientes. Precisamos mesmo é de um filho.

Uma das obras que visitamos era uma casa linda na beira da praia. No lado de fora, sentindo o cheiro do mar, lembrei que a assitente social me ligaria naquela semana. Em breve eu seria mãe. Como vou deixar meu filho e visitar meus clientes aos sábados? – pensei, me desligando completamente do trabalho.

Ela vai ligar e vai dar tudo certo. Este era o meu pensamento. Mas ela não ligou. Ninguém ligou.

Todos os dias Léo me perguntava se eu havia recebido a ligação. A resposta era sempre a mesma: não. Cansada de aguardar e decidida a tomar uma atitude, marquei minha ida ao Juizado.

Na sexta-feira de tarde estávamos os dois lá. Nunca havia estado num juizado de menores. Um prédio público normal, se não fosse pela minha tensão. O elevador estava quebrado. Subimos três andares de escada, mas estava felicíssima e subiria até o décimo andar se fosse o caso.

Eu sentia uma coisa tão estranha. Uma alegria, uma incerteza, um medo, uma vergonha. Um coquetel de sentimentos. Entramos na sala da inscrição. Havia, além da atendente, uma mulher lá.

Boa tarde. Boa tarde. Silêncio. A senhora também vai adotar? Vou, e você? Demora muito? depende. E a conversa foi se alongando. A assistente social estava atendendo outra pessoa. Aquela senhora tentou por 10 anos engravidar. Resolveram adotar e já estavam mais adiantados no processo, pois já iriam fazer a entrevista com a psicóloga. Eu ainda estava começando. A senhora pode se dirigir àquela sala, por favor. Agora era a nossa vez.

Paloma. Este era o nome dela. Pele morena, olhos castanhos, muito alertas. Muito simpática. Ela começou fazendo uma perguntinha: no que posso ajudar vocês?. Que pergunta! Eu quero um filho!

Foram 35 minutos de conversa. Ela nos falou quais eram os requisitos: ser maior de 18 anos, comprovar renda, ser 16 anos mais velho que o adotado, dentre outras coisas. Dentre muitas outras coisas. No total foram exigidas 4 tipos de certidões, 2 comprovantes, várias cópias autenticadas, declarações e uma procuração.

Ela nos explicou todo o processo. Só não conseguiu explicar o motivo de não terem retornado a ligação. Em momento algum me desanimei diante do que foi exigido. Estávamos dispostos a ir até o fim com aquilo. Saímos do juizado com uma esperança tão grande, um desejo tão forte! muito mais forte que a burocracia.

O processo da adoção é praticamente uma gestação. O desejo vai crescendo dentro de você, vencendo as barreiras, se articulando para o grande dia. É uma gravidez da alma, do coração.

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